Carreira contábil: a importância da formação continuada

Lucélia Lecheta
Vice-presidente de Desenvolvimento Profissional do CFC

Não é difícil perceber, tendo em vista a própria história e as tendências futuras, que o profissional da contabilidade foi, é, e sempre será essencial a qualquer empreendimento. Em tempos de crise, como o vivenciado pela economia brasileira nos últimos anos, a Ciência Contábil se destaca pela amplitude dos assuntos de seu domínio – além das normas contábeis, temas como legislação tributária, controladoria, comércio internacional e finanças públicas fazem parte da rotina do profissional.

Nesses momentos de instabilidade, é necessário que o profissional esteja atento ao cenário econômico e as expectativas de mercado. Com a recessão e o acesso mais difícil ao crédito, torna-se essencial a redução de custos por meio de planejamento e posicionamento estratégico da empresa buscando o equilíbrio das contas. Nesse sentido, a presença do profissional contábil torna-se imprescindível, visto que auxilia o empresário a manter seu empreendimento saudável nos tempos de turbulência.

Nos momentos de bonança, a figura do contador também é crucial, já que é preciso garantir a segurança das informações de natureza contábil, fiscal, societária, trabalhista e previdenciária, além de analisar estratégias de investimento buscando valorizar e expandir o empreendimento.

Esses fatores reforçam que o diálogo entre a direção da empresa e sua área contábil deve se dar de maneira constante e não mais como antigamente, quando o profissional responsável pela contabilidade era consultado em momentos específicos.

Ressaltamos esses aspectos de forma sucinta com o intuito de lembrar o quão fundamental e nobre é essa profissão e como isso vem se consolidando no decorrer dos anos. É notável o quanto ela beneficia a sociedade, contribuindo para o crescimento e desenvolvimento econômicos, uma vez que está diretamente relacionada ao bom andamento dos negócios.

Um artigo recente intitulado “O mercado vai ferver para estes cargos de finanças em 2018”, publicado na revista Exame (18 de dezembro de 2017) destaca que este é um ano promissor para a profissão. Mesmo com a retomada acanhada dos indicadores econômicos até o momento, as expectativas apontam para um crescimento do PIB de 1,5% para 2018 e cerca de 2,6% para 2019 (Boletim Focus/junho). E, simultaneamente ao crescimento, espera-se uma recuperação do mercado de trabalho.

A matéria detalha as carreiras mais promissoras para 2018 segundo as consultorias de recrutamento Hound, Resch RH, Hays, Michael Page, Robert Half e Stato. Os cargos de diretor financeiro e de diretor de impostos estão entre os mais demandados pelo mercado, sendo a formação em Ciências Contábeis um diferencial para se ocupar essas funções. Entre os outros cargos que estão em alta para os profissionais da contabilidade, se destacam o controller, o analista contábil de report e o gerente de compliance e risco.

Diante dessas informações, é preciso ficar atento à mudança no perfil dos profissionais exigida pelo mercado. Maior qualificação, visão de negócios e habilidades analíticas e de comunicação estão entre os requisitos essenciais exigidos pelo mercado. Tendo em vista a rapidez com que as transformações vêm ocorrendo, o profissional deve estar preparado para absorver informações e se adaptar a nova era tecnológica em que se destacam termos como Big Databusiness intelligence e inteligência artificial, saindo do nível operacional de trabalho rumo a um patamar mais estratégico.

É preciso ter em mente que, diferentemente do que se apregoa, os avanços tecnológicos devem ser vistos como aliados do profissional. Como toda novidade vem naturalmente acompanhada de certa resistência, urge derrubar essa barreira e tomar ao seu lado a tecnologia – os softwares de gestão contábil oferecem muitas vantagens para otimizar processos e facilitar tarefas diárias, o que traz ganhos quanto ao tempo que é poupado e pode ser utilizado em outras atividades, de modo a potencializar os resultados.

Nesse aspecto, o profissional pode estar assegurado de que suas habilidades e capacidade analítica são insubstituíveis. Os softwares podem gerar dados, contudo, estes precisam ser explorados, cuidadosamente analisados e transformados em planejamento de modo que o cliente tenha clareza das melhores escolhas que o levarão a alcançar o sucesso em seu empreendimento.

Assim, a atualização de conhecimentos é imprescindível para que o profissional não fique para trás. As boas novas apontam que o profissional contábil tem sido levado ao campo da gestão na medida em que contribui para identificar e desenvolver as melhores ações que visam garantir o sucesso e a expansão do negócio. Destarte, é fundamental que esse profissional esteja disposto a investir em atualização constante.

Nessa linha de entendimento é que foi criado o Programa de Educação Profissional Continuada (PEPC) do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) que, desde 2003, visa atualizar e expandir os conhecimentos e competências técnicas e profissionais, juntamente com as habilidades multidisciplinares. Além disso, busca promover a elevação do comportamento social, moral e ético dos profissionais da contabilidade.

O PEPC é direcionado aos auditores independentes, responsáveis técnicos pelas demonstrações contábeis ou que exerçam funções na área de gerência no processo de elaboração daquelas empresas reguladas e/ou supervisionadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), pelo Banco Central do Brasil (BCB), pela Superintendência de Seguros Privados (Susep) e pela Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc). Engloba, também, empresas consideradas de grande porte nos termos da Lei n.º 11.638/2007 e entidades sem fins lucrativos que se enquadrem nos limites monetários da lei citada.

De acordo com a Norma Brasileira de Contabilidade (NBC PG 12), para cumprir o Programa, o profissional deve atingir, no mínimo, 40 pontos de EPC por ano. Essa pontuação pode ser obtida de várias maneiras, como por exemplo, lecionando, participando de congressos, conferências ou seminários, entre outras. Atualmente, existem mais de dois mil cursos e eventos credenciados pelo CFC que podem ser consultados nos sites dos Conselhos Regionais de Contabilidade (CRCs).

Vale mencionar que, além dos profissionais que são obrigados a prestar contas ao EPC, o CFC incentiva a participação voluntária. E essa iniciativa tem obtido sucesso, já que, em 2018, o Conselho recebeu mais de 32 mil prestações de contas ao EPC referente ao ano calendário 2017, como pode ser observado no gráfico abaixo.

Quantitativo de Prestações de Contas – EPC

Fonte: Conselho Federal de Contabilidade (CFC).

É importante destacar que, em 2016, agregou-se ao grupo de obrigados,  os responsáveis técnicos pelas demonstrações contábeis de empresas de grande porte e, em 2017, os responsáveis técnicos das empresas reguladas pela Previc. Mesmo assim, o número de voluntários é grande, considerando que o número de obrigados girava em torno de 3 mil. Isso demonstra o interesse do profissional em se manter atualizado, mesmo que não esteja enquadrado na obrigatoriedade do programa. Ao longo dos próximos anos, a expectativa é de que todos os segmentos da Contabilidade sejam incluídos no PEPC, cumprindo assim as normas internacionais de educação da International Federation of Accountants (IFAC).

A atualização e capacitação dos profissionais têm sempre por objetivo aprimorar a qualidade dos serviços prestados, oferecendo à sociedade contadores preparados para as mais diversas atuações que a formação permite. Essas vão desde auditoria, setor público, assessoria, análise financeira, consultoria, perícia contábil até o âmbito acadêmico. Hoje, no Brasil, são mais de 520 mil profissionais e cerca de 64 mil organizações contábeis.

Haja vista que a formação acadêmica continuada é requisito fundamental para a educação integral do profissional da contabilidade, o CFC instituiu também o Programa Excelência na Contabilidade, que tem como proposta intensificar a implantação de cursos de pós-graduação stricto sensu em Contabilidade. Esse programa participa financeiramente de projetos específicos, mediante convênios firmados com instituições de ensino superior recomendados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

O projeto toma uma dimensão importante ao considerarmos que, mesmo com a expansão do ensino superior e de programas de pós-graduação, o número de cursos de mestrado e doutorado na área de Ciências Contábeis ainda é muito reduzido. De acordo com a avaliação quadrienal da Capes de 2017, são cerca de 18 programas que abordam, de fato, as Ciências Contábeis em todo país.

De todo modo, não temos outro caminho a não ser entrar no ritmo do aperfeiçoamento e das inovações. Daqui para frente, alguns fatores deixarão de ser diferenciais e passarão a ser necessários a uma velocidade cada vez maior. Requisitos como atualização constante, comunicação alinhada entre empresa e contador e tecnologia de ponta já são considerados primordiais para a sublimidade dos serviços dos profissionais e das organizações contábeis.