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Ana Tércia sublinha os aspectos positivos da declaração do Imposto de Renda

Para Ana, momento pode ser uma oportunidade para expandir o campo de atuação

Por Claiton Dornelles/Roberta Mello
Jornal do Comércio

Se para muitas pessoas, sejam elas pessoas físicas ou profissionais contábeis, o momento de realizar a declaração do Imposto de Renda é sinônimo de preocupação, a contadora e presidente do Conselho Regional de Contabilidade (CRCRS), Ana Tércia, defende que é hora de mudar. Para os contribuintes a preparação da Declaração do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física (DIRPF) pode ser uma oportunidade para se debruçar sobre as finanças familiares e avaliar o desempenho ao longo do ano anterior, fazer projeções e se educar financeiramente.

Os contadores, por sua vez, podem estar ao lado dos clientes para aproveitar ao máximo esse momento e utilizar a necessidade de submissão de dados ao Fisco para se aproximar das pessoas físicas, diversificando o rol de clientes e, com isso, expandido seus negócios. “Normalmente, estamos muito voltados aos empresários. O início do Imposto de Renda é aquela oportunidade para expandir o campo de atuação”, indica Ana. “O IRPF é um momento de ouro em que a contabilidade está mais próxima das pessoas, em que as pessoas lembram do contador de uma maneira diferente”, salienta.

JC Contabilidade – Percebemos que a profissão contábil mudou muito e o contador se dedica cada vez à gestão das empresas. Nesse cenário, parece que a DIRPF se tornou tão fácil que o contador não se dedica tanto a esse serviço. Você vê, por outro lado, que essa pode ser oportunidade importante de expansão dos negócios contábeis?

Ana Tércia – Sim. Eu tenho percebido que a cada ano o sistema da Receita Federal se torna mais funcional e permite realmente que as pessoas consigam fazer a declaração sozinhas com tutorial e com as informações que circulam nos meios de comunicação. Se ela não tem uma vida financeira muito complexa, com muitas fontes de renda, imóveis, outros bens, consegue fazer a declaração tranquilamente. Porém, há um paradoxo. Acontece que ao mesmo tempo em que o sistema se tornou mais funcional, amigável, fácil de ser manuseado, as pessoas começam a ficar mais cuidadosas com o trato das suas informações e da sua vida financeira de tal maneira que ela pensa se não vale a pena pagar um valor, mas ter um profissional que conhece todos os trâmites acompanhando o envio da obrigação. Tudo isso dá mais segurança e dá talvez até alguma vantagem no sentido de que essa pessoa pode receber uma informação que sozinha não descobriria. A própria destinação de uma parte do imposto devido ao Funcriança é algo fácil de fazer, mas se o contribuinte tem alguém orientando fica mais fácil.

JC Contabilidade – Toda essa conscientização para a doação e até o agrupamento dos documentos se torna diferente quando a relação entre cliente e contador já está mais solidificada?

Ana Tércia – Esta é a importância do trabalho continuado, de acompanhar o cliente de um ano para o outro, podendo fazer até um estudo de evolução patrimonial, mostrar ao cliente como está a vida patrimonial e financeira, se está evoluindo ou não. Ele pode ajudar a pensar o que está acontecendo, por exemplo, se a pessoa está pagando menos impostos. Parece mentira, mas acaba sendo uma questão preocupante quando o contribuinte está pagando menos imposto. Seu rendimento pode estar diminuindo. Esse acompanhamento para aqueles contadores que têm um histórico com o cliente pode orientar e provavelmente já tem até carta branca para sugerir pelo menos a destinação. Mas acaba que a maioria das pessoas deixa pra fazer quando vai efetuar realmente a declaração e aí fica mais limitado.

JC Contabilidade – Esse conhecimento ao longo do ano pode ajudar em 2019 quando o prazo para emitir a declaração está mais apertado. Isso preocupa os contadores neste ano? Pode gerar um encurtamento do prazo nos próximos anos e impactar de alguma forma na quantidade de clientes atendidos?

Ana Tércia – Na verdade, o contador está sempre chorando prazo. Todo prazo sempre é pouco, mas é algo que já entra dentro do planejamento da maioria dos escritórios de contabilidade. Agora é uma época em que o pessoal trabalha no fim de semana, trabalha fora de horário comercial e já existe essa predisposição para enfrentar essa maratona de elaboração de declarações. Mas é óbvio que prazo mais curto complica um pouco a vida do profissional. Eu acredito que planejamento nesse caso é ainda mais essencial. Sempre vai ter aquele cliente que vai chegar na última hora. Os colegas têm diferentes posturas também em relação a isso. Tem aqueles que já conseguiram disciplinar os seus clientes e que um dia antes do encerramento do prazo não recebem mais documentação de ninguém. Também tem aqueles que até na última hora vão ver oportunidade para faturar com os atrasadinhos. Tudo depende muito do perfil do profissional.

Contabilidade – Mas de todos os jeitos você indica que os profissionais aproveitem o momento para crescer?

Ana Tércia – Eu acho que não dá para perder essa oportunidade. Eu sou defensora de que o profissional tem que abraçar todas as oportunidades que ele tem de captar cliente, de ter movimento dentro da sua empresa, de fazer relacionamento e eu acho que a declaração do imposto de renda é uma oportunidade inclusive da contabilidade ficar mais próxima da pessoa física. Se não a contabilidade fica sempre muito voltada para empresas, para negócios normalmente de maior porte e a pessoa física é um nicho econômico que muitas vezes é menosprezado dentro da nossa profissão.

JC Contabilidade – O imposto de renda pode ser a via de aproximação para a venda, após, de outros serviços, como um planejamento financeiro, de Previdência?

Ana Tércia – Sim, tem muitas coisas que o contador por vender. Hoje, o que as pessoas buscam em suas relações profissionais e pessoais são profissionais de confiança – sejam eles médicos, advogados, fisioterapeutas, e a contabilidade traz isso na sua essência. Cada vez mais, pessoas físicas têm potencial de crescimento. A própria questão do MEI está centrada na figura da pessoa física e que pode precisar de um contador. Mais tarde, com um assessoramento, esse cara pode se tornar grande e depois desse crescimento pode não adiantar mais querer correr atrás. Além disso, o contador pode empresariar um artista, um jogador, um profissional liberal. Hoje tem tantos ganhando tanto dinheiro, como maquiadores, blogueiros e que estão negligenciados pelos contadores. Negligenciar esse mercado não é uma coisa inteligente.

JC Contabilidade – Esse é um dos maiores desafios atuais – democratizar o acesso aos contadores?

Ana Tércia – Sim. Nos Estados Unidos os contadores já atuam muito dessa forma – não confinando, não deixando a contabilidade reduzida a um único tipo de negócio, de empreendimento. Eu acho que nós temos que popularizar a contabilidade, não no sentido de vulgarizar, mas de tornar mais próximo de pessoas que não veem na contabilidade algo que pode trazer a elas algum benefício.

JC Contabilidade – Por fim, um tema que a gente também sempre traz é o debate sobre a defasagem na tabela do imposto de renda e que conforme o Sindifisco ultrapassa 90%. Isso é uma preocupação principalmente na hora de fazer a declaração por que pessoas com renda bastante baixa acabam tendo de fazer o pagamento e, às vezes, até mesmo incorrem em fraude? Os contadores sofrem alguma pressão para tentar dar um jeitinho para diminuir o imposto devido?

Ana Tércia – É lamentável, realmente. O fato de tributar a renda já não dá margem para muitas manobras. As pessoas assalariadas já têm um desconto na fonte e o que resta é tentar buscar esse valor de volta via declaração. Essa defasagem da tabela traz na sua essência uma injustiça que é o fato de pessoas com uma baixíssima capacidade contributiva estarem contribuindo e sendo oneradas. Então eu diria que espaço para manobras é cada vez menor. O que acontece é que os próprios modelos simplificado e completo já existem para dar algum conforto nesse sentido. O fato de pessoas com renda baixa estarem pagando imposto e muitas vezes terem de buscar um profissional para ajudar a fazer os penaliza realmente.

JC Contabilidade – O que você indica de solução para essas pessoas de baixa renda que está preocupadas com a declaração?

Ana Tércia – Temos uma quantidade bem grande de NAFs (Núcleos de Apoio Contábil e Fiscal) funcionando nas principais faculdades de Ciências Contábeis. Esse é o espaço onde aquela pessoa de baixa renda, mas que tem um salário razoável e, por isso, um imposto descontado, e que nunca fez a declaração, pode encontrar ajuda. Para os estudantes eles são espaços de atuação cidadã para ajudar essas pessoas que, em algum momento, foram tributados e de exercitar a educação fiscal.